Ansiedade: o relato de alguém que vive com o transtorno

10/09/2019

Aqui você verá a rotina de uma pessoa com ansiedade, relatada em primeira pessoa. Descubra neste artigo o peso de lidar com o transtorno, e quais são os sintomas mais difíceis de controlar.


Pare de se preocupar com isso! É o que costumo ouvir quando falo o que se passa nos meus pensamentos. É por isso que eu deixei de tentar falar sobre eles.

Parece que ninguém me entende, ou ainda pior: me sinto culpada em ver que as pessoas ao meu redor não estão se preocupando tanto quanto eu. E o "Pare de se preocupar com isso" fica ecoando e ecoando cada vez mais nos meus pensamentos.

Às vezes penso que meu cérebro veio com algum defeito que os médicos que me atenderam ao longo da minha vida não identificaram. Eu fico procurando, vasculhando, viro tudo de cabeça para baixo dentro de mim e não encontro esse botão que parece que os outros têm. Cadê o botão de parar? Tem antivírus mental? Não é possível que eu não consiga parar!

Acredite, se eu simplesmente conseguisse parar, eu pararia. Não tenha nenhuma dúvida disso. Aliás, tenha absoluta certeza que se eu conseguisse eu pararia imediatamente.

É mais ou menos assim que eu me sinto...

Lembra, na infância, de como você se sentia na noite anterior a uma excursão, ou na véspera do primeiro dia de aula na escola nova? De quando você deitava na cama e simplesmente não conseguia parar de pensar em como seria? Do estômago parecer flutuar dentro de você e de, por mais que você quisesse dormir para o dia seguinte chegar logo, você não conseguir? É mais ou menos assim que eu me sinto, só que não é só na véspera de algo, é na grande parte do meu dia.

Eu desisti de falar sobre como me sinto para as pessoas porque elas não me entendem, e isso me assusta. Me assusta pensar que tem tanta coisa acontecendo dentro de mim e que alguém a poucos centímetros ou metros de distância não esteja percebendo.

Sinto tensão. Fica tudo tenso e parece que qualquer movimento em falso que eu der algo desastroso vai acontecer, porque enquanto eu tento simplesmente agir normalmente, as sensações aqui dentro são tantas e tão intensas que seria inevitável não pensar que o pior possa acontecer, caso eu me mova errado.

Taquicardia, sudorese, tremor, calor, dor de estômago, dificuldades para respirar... aqui dentro de mim parece ter uma verdadeira sirene de alerta. Uma sirene vermelha enorme, que ascende e logo dispara o alarme de incêndio, que dispara uma movimentação gigantesca, se trata de uma emergência!

Eu sei que não era para eu me sentir assim, mas não sou eu que controlo. Não tem "nada" acontecendo e, de repente, não mais que de repente, começa a acontecer tudo isso aqui dentro.

É exaustivo. É tanta coisa acontecendo no meu corpo e na minha mente que já perdi as contas de quantas vezes eu parei e senti que tinha sido atropelada por um trem. Ou então, senti meu corpo tão cansado que parecia que eu tinha preparado três TCC's em uma noite, ou uma ceia de Natal para cinquenta famílias.

Fico moída, literalmente acabada e ainda tenho que ouvir:

"Por que você está tão cansada? Sua rotina nem é tão estressante assim, tente se organizar melhor."

Meu Deus, não é possível! Se tivesse um curso para tentar disfarçar o cansaço do meu corpo eu seria a primeira a me matricular, só para não chamar a atenção. Como dói ouvir essas coisas... faz eu me sentir pior do que já me sinto, mesmo achando que não seria possível.

Entenda como minha mente funciona

Não me diga "vou te contar algo, mas não é para se preocupar", ou "que coisa boba, isso não é motivo para estar preocupada assim". Já fiquei preocupada na metade da frase.

Minha mente é astuta, ela consegue elaborar uma quantidade enorme de preocupações e possibilidades em frações de segundos. Está sempre um passo à frente de mim, e tenho certeza de que se existisse um prêmio por eficiência na produção de preocupações, poderia sair por aí dizendo que tenho uma mente premiada e com destaque.

Hey! Você não ajuda falando que a chance disso ou daquilo acontecer é pequena. Minha mente demonstra-se muito ativa e eficiente nesse sentido: ela traça inúmeras possibilidades e todas são reais para mim, independente das chances de virem a acontecer. Ao contrário de você, me preocupo até mesmo com o fato de você não estar preocupado.

Que coisa de maluco! Nem faz falta estar conversando sobre algo grave, posso estar simplesmente estar planejando fazer um bolo com você. Pois é, para assar um bolo, eu fico assim, com a mente ocupada com um monte de possibilidades: quais ingredientes serão necessários e onde compra-los, qual receita vai ser melhor seguir, se o bolo vai solar, se o fundo queimar, se as pessoas vão gostar e o que elas vão pensar de mim. Talvez nem pensem nada, mesmo se o bolo ficar bom. Talvez nem venha ninguém comer o bolo...

Olha aí: já estou fazendo outra cadeia de raciocínios com mais possibilidades e preocupações... Talvez eu nem queira fazer um bolo, e talvez o que tenha combinado com você nem vá se concretizar, mas a sirene aqui dentro já disparou.

Será que o forno está limpo? Será que se ele não estiver você vai me achar suja? Será que se eu falar que não estou com vontade de fazer um bolo você vai me achar grosseira? Será que minha expressão está normal enquanto você me fala sobre esse bolo? Será, será, será...?

Ansiedade nada mais é do que temer o futuro

Não complemente a frase com algo do tipo: "apenas para coisas graves" ou "nada justificaria tantas preocupações".Você acha mesmo que já não pensei no que você está me falando? Com uma mente tão ativa, você realmente acredita que eu possa não ter pensado a respeito? Eu simplesmente não consigo controlar. Minha mente não para.

Eu posso estar fisica e mentalmente exausta, mas simplesmente não sou eu que ligo a sirene; "sem mais, nem menos" ela dispara.

"Ah! Mas porque você não faz yoga para aprender a controlar sua mente?" É sério mesmo que você acha que eu nunca tentei? É sério mesmo que você acha que já não tentei tudo que li a respeito do que pode ajudar? É sério mesmo que você acha que é tão simples?

Se eu sequer consigo relaxar minha mente quando estou sozinha no meu quarto, à noite, com meu corpo cansado... o que faz você acreditar que estar rodeada por pessoas que eu não conheço, que minimamente serão mais bonitas do que eu, ou que controlam suas mentes e seus corpos com mais facilidade do que eu, pessoas que podem me julgar caso eu não esteja conseguindo fazer o que for pedido na aula, são circunstâncias farão com que me sinta melhor, motivada ou confiante?

Acho que você não está entendendo: eu me sinto fracassada cada vez que não consigo fazer algo que aparentemente é tido por todos como normal ou fácil. Qualquer coisinha que saia do previsto, ou que não esteja dentro das infinitas possibilidades que tracei, faz com que me sinta ainda mais exausta. Eu me sinto em pane emocional, ameaçada e muito preocupada.

E vem a estagnação!

Não fique chateado quando recuso um convite seu, às vezes eu simplesmente não estou apta para viver tantas coisas fora do previsto e, mesmo doendo, vou precisar inventar uma desculpa e recusá-lo.

Eu adoraria buscar um emprego novo, mas nem consigo imaginar passar por um processo seletivo, então é melhor eu ficar aqui mesmo, pelo menos estou segura.

Eu adoraria dar mais de mim e produzir mais, mas minha concentração está tão prejudicada que aceitar um novo projeto agora só aumenta as chances de eu me sentir fracassada ao não conseguir. Então é melhor eu simplesmente ficar na minha e nem tentar.

Eu estou sempre por um fio, escrava de uma mente dominadora e sendo refém dela. Me sinto paralisada, mas a necessidade de me sentir segura é maior do que qualquer desejo.

Minha relação com o tempo

É assim, não é fácil. Me entristece pensar que não estou vivendo o presente por me preocupar tanto com o futuro. Estou sempre pensando no futuro. E quando falo sobre futuro, não estou falando do que estará acontecendo daqui 30 anos, estou falando do que pode acontecer daqui 3 horas, daqui meia hora, daqui 3 minutos.

Acredite em mim, é cansativo. Eu queria me sentir diferente, mas simplesmente não consigo. Imagine como você se sentiu na véspera de algo que foi muito difícil para você fazer? O exame prático para tirar carteira de motorista, o dia do seu casamento, a dinâmica daquele emprego que você sempre sonhou... lembrou?

Pois é, agora tente ver meu mundo através dos meus olhos: eu me sinto assim quase o tempo todo. Bem-vindo à minha vida, ou melhor, bem-vindo à minha mente. Não é pessimismo, não confunda: é ansiedade.

Relato real de Valéria (nome fictício)

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Algumas considerações sobre a ansiedade

Por ser uma doença psicossomática, a ansiedade demanda acompanhamento psicológico e psiquiátrico. O desequilíbrio bioquímico no organismo desencadeia os sintomas físicos, que requerem suporte medicamentoso para estabilização e controle, enquanto a psicoterapia é fundamental para a compreensão daquilo que motivou esse desiquilíbrio, além de ajudar a enfrentar conflitos e prejuízos decorrentes da ansiedade.

Esportes, meditação e atividades de lazer podem minimizar e auxiliar no controle dos sintomas, mas não substituem o tratamento. Procure apoio de um profissional de saúde mental e confie em seu tratamento: não o abandone, não é frescura.

Colaboração: psicóloga Maitê Hammoud