Arte Intensificada

EZRA POUND − o poeta que, em sua radicalidade, fez com que muitos o tomassem como louco, enquanto outros encontram nele a ruptura com todas as formas de tradição e o início da poesia moderna − compreendia a poesia como a "língua intensificada": a palavra carregada de sentido no mais alto grau. E alguém, pegando carona com o poeta, propunha, por analogia, compreender a arquitetura como "construção intensificada". Mas, então, haveria de se explicar como se "carrega de sentido" certa obra, seja um texto ou um edifício; como se "intensifica" um objeto, ou uma relação sujeito  objeto, de modo que este se destaque do ordinário.

27/01/2019

                 Insetos de Eloisa, fotografia do autor, 2012.

Sem falar nos sujeitos, poetas ou arquitetos, aos quais se deveria agregar a atribuição de "carregadores" de sentidos, ou deixar-se-ia tal tarefa aos leitores de poemas e usuários de espaços.

Mas, em se tratando de arte, sejam as artes como um todo, ou as artes visuais em particular, ou, mais especificamente, o desenho ou pintura ou escultura ou cerâmica ou gravura ou instalações ou fotografia ou cinema ou imagens digitais, paradas ou em movimento; ou sejam híbridos de todos os tipos, misturas de todas as técnicas, colagem de inúmeras formas, materiais de diferentes origens... ou vazios, ausências - de técnica, de formas, de materiais − como se percebe, identifica, valoriza, conota, a arte hoje?

Um livro "híbrido" intitulado Arte e arquitetura: novas afinidades, de Julia Schulz-Dornburg (2002), tem um papel essencial nesta reflexão. O título é suficientemente esclarecedor. Ali estão reunidas, em torno de oito categorias − barômetro, passagem, reflexão, som, luz, observação, escavação, memória −, obras de arquitetos e artistas plásticos que se constroem como interfaces entre um e outro "campo".

Ou melhor, sugerem a ergência autônoma de outro campo, "periférico" às artes visuais e à arquitetura, mas alimentado, talvez, justamente por aquilo que está no "centro" em cada disciplina: obras, "no mais alto grau, intensificadas" de sentido, em razão deste espaço de encontro. Arquitetura, talvez, como campo ampliado (como foi sugerido por Krysta Sykes, por exemplo, em relação ao campo da escultura).

Um ensaio breve de Schulz-Dornburg, denominado Para uma percepção sensual do espaço, objetiva fornecer as chaves (ao menos em parte) para as (re) definições de arte e arquitetura que conduziram a seleção de obras. As oito categorias estão elencadas como demonstração desta condição de sensualidade envolvida na fruição dos espaços e dos objetos que compõem cada uma delas. Mas o que de fato importa aqui, como esboço que busca responder à questão inicial, é que o conjunto das obras - exibidas com imagens e textos - parece funcionar, no plano cognitivo, como motor de "desequilibração" (no sentido piagetiano da palavra).

Mas, neste brevíssimo percurso de intuições sobre a arte hoje, outra linha de reflexão diz respeito à proximidade entre os sujeitos que fazem e os que usufruem da arte, e que se incorpora à vida cotidiana, e que é, talvez, o motor mais poderoso para que a arte seja um valioso componente da felicidade. Humberto Gessinger, o músico (e referindo-se, mais diretamente e de forma quase evidente,à musica), sugere que há tanta arte na ação de ouvir quanto na de tocar. Ou seja, está também, no ouvinte, a condição de artista. Por isso temos dois ouvidos e uma só boca, alguém já disse, em outro contexto.

A proximidade do artista, a amizade real ou simplesmente imaginada ou sentida num plano além do pensamento na relação entre o sujeito que produz a arte e aquele que a recebe e faz da arte do outro uma outra coisa, e que o conhecimento do sujeito, a intimidade com seu devir (seja conhecido ou imaginado ou sentido), fazem com que a obra, realizada em qualquer suporte ou técnica ou material, se intensifique como na definição de poesia do Pound.

     Cordalápide (Bozak) 

Por isso, ao modo de ilustrar este ponto de vista, destaco a imagem acima, que considero belíssima, reprodução de uma obra de Izolde Bozak, uma grande artista e, melhor, uma grande amiga, de maneira que a arte não está apenas na obra em si (seja no suporte, ou na técnica, ou no material), mas na oportunidade de encontro com a artista, que é capaz de brindar ao mundo algo tão intensa e intimamente sentido, e tão generosamente compartilhado. Como na filosofia, talvez, ser amigo do artista é tornar-se amigo de seus conceitos e, em certa dimensão, fazer parte da sua produção artística.

Por isso, também destaco o processo (imagem abaixo) em que um poeminha meu (publicado em Obvious Lounge com o título Pausa para poesia #1) se desvencilha do papel em que foi escrito, pelas mãos e mente de Bozak, e se incorpora à pantalha, jogo-poema-quebra-luz,, onde é fotografado por Dani Langer.

         Poema Luz (Andrade / Bosak / Langer)

A reunião de insetos na parede do ateliê de Xico Stockinger, hoje ateliê de Eloísa Tregnago, imagem que da início a esta crônica, é outro exemplo. Por que a condição de arte, então, vem implicada ao contexto mágico do ateliê, onde tudo se transversa em arte, onde a obra de arte começa com o ar que ali se respira. Quando eu a fotográfo, aspiro apenas um registro adjuvante da memória; impossível fotografar o fluido etéreo que preenche os cômodos daquela casa.